O mundo espantado com o que acontece na China

Confúcio, pensador chinês nascido há mais ou menos 2500 anos


O mundo inteiro iniciou o ano de 2020 assustado com mais uma epidemia respiratória surgida na China. A contaminação pelo vírus Corona começou na província 
de Hubei, com mais de 60 milhões de habitantes no sudeste chinês. Sem saída para o mar, a província concentra poderosas indústrias automobilísticas. Desde o início do ano, os moradores estão isolados do resto do mundo. Uma quarentena imposta pelo governo não permite nenhum contato com as demais regiões, seja por terra, rios ou avião. 
País comunista desde 1949, a China tem um governo forte e centralizado. O partido único, o Comunista Chinês, não tem oposição e toda a crítica é abafada. Por isso, há a crença de que a epidemia possa ser maior do que a relatada pela mídia. Lembrando que, na China, toda atividade jornalística é ferozmente controlada.

Apesar de comunista depois da revolução de 1949, liderada por Mao Tsé-Tung, a China ainda é guiada pelo pensamento de um filósofo chinês que viveu há, mais ou menos, 2500 anos. Confúcio é a tradução para o português de Kong-fu-zi, ou "aquele mestre Kong". Kong era seu sobrenome. 

Confúcio era filho de nobre, uma pessoa livre que não tinha posses. Ele estudou com mestres e elaborou uma doutrina de vivência entre os chineses e uma espécie de guia para os governos. Mesmo com a influência do budismo, do taoísmo e do marxismo (no século 20), o Confucianismo é a filosofia fundamental do chinês.

Suas orientações, todas descritas em rolos de papel escritos por seus discípulos, estão condensadas na obra Os Analectos. Em linguagem densa, mas direta, há alguns pontos que explicam o modo como  o governo chinês tem lidado com o problema da gripe do Corona. 

Para Confúcio, as tarefas de governo são destinadas aos chamados "homens nobres", que estariam acima do povo. O pensador estabelecia que havia os nobres, que tinham uma conexão com o divino, os homens nobres - logo abaixo - que tinham a função de governar, e o povo. O indivíduo, como o pensamento ocidental costuma elaborar, não tem relevância no pensamento confuciano.

"O homem nobre é capaz de levar a cabo a obra de criar a Ordem no país, de satisfazer o povo abaixo e inspirar e guiar a elite burocrática acima", diz no segundo capítulo do seu primeiro rolo dos Analectos, "Weizheng, a Arte do Governo". 

Nos seus rolos, as frases de Confúcio são sucintas. Para começo de conversa, onde é dito que os homens nobres são quem mandam, o pensador chinês resumiu: "O Mestre disse: o homem nobre não é uma ferramenta". Ou seja, a ferramenta era o povo.

E hoje, com o que está se vendo na China - ou, o pouco que se vê - é o tratamento do povo como se fosse uma grande massa. Para tentar diminuir uma possível epidemia nacional da gripe Corona, o governo chinês está tratando os seus cidadãos como imensos blocos de gente. 

O confucianismo  é uma doutrina conservadora por excelência. É interessante notar que a quase totalidade das doutrinas adversárias do confucianismo prestavam-se, em alguma medida, a defender o esfacelamento da Confederação de Zhou - a "China" então conhecida na época de Confúcio -  ou as grandes reformas na estrutura político-administrativa que prevalecia havia séculos.

Entender a China não é fácil para os ocidentais. Há uma cultura de controle do povo que não é de agora, do comunismo que lá impera há mais de 70 anos. O controle é muito mais antigo. Com a epidemia do Corona, esta parte da cultura chinesa vem à tona. Para espanto do mundo. 

Ps.: No Brasil, a tradução mais importante dos Analectos é editada pela Editora Unesp em 2012. Coordenada pelo professor Luís Antonio Paulino, diretor do Instituto Confúcio da Unesp, a obra tem comentários, pesquisa e tradução do chinês do diplomata brasileiro Giorgio Sinedino. 


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Donald Trump tem tudo para ser presidente dos Estados Unidos novamente, sendo reeleito neste ano de 2020. A popularidade do presidente topetudo bate nos 49%, a economia norte-americana está bombando e Trump, quem diria, é um pacifista: não fez guerras como seus dois antecessores, Obama e Bush filho. 

No cenário internacional, Trump deu um "chega-prá-lá" diplomático na China. Mandou matar o segundo homem mais poderoso do Irã com um míssil na cabeça. E apesar de cutucar os aiatolás do Irã, não houve nenhuma retaliação digna de nota contra as forças norte-americanas. 

Na Inglaterra, a direita de Boris Johnson venceu avassaladoramente e o país deixou a União Europeia. Foi um duro recado à esquerda internacional. Os ingleses não se sujeitam mais ao centralismo e à política burocrática. 

O liberalismo ganhou. 

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